Muitas pessoas que estão no processo de aprender uma nova língua acreditam que a fluência é um destino onde não há espaço para erros. No entanto, o ramo da ciência que olha para a aquisição de línguas nos mostra o oposto: o erro não é um sinal de fracasso, mas sim uma evidência clara de que o seu cérebro está trabalhando e muito.
Na obra How Languages are Learned, Patsy Lightbown e Nina Spada explicam que o desenvolvimento da linguagem de um aluno não é uma versão imperfeita da ‘língua original’, mas sim um sistema em constante evolução, chamado de interlanguage (interlíngua). Elas afirmam que:
Às vezes, a aquisição da linguagem é refletida em uma diminuição no uso de uma forma correta que se baseava na memorização mecânica ou no aprendizado por blocos (chunks). Novos erros podem fundamentar-se em uma habilidade emergente de estender uma forma gramatical específica para além dos itens memorizados com os quais ela foi primeiramente aprendida. Nesse sentido, um aumento no erro pode ser uma indicação de progresso (LIGHTBOWN; SPADA, 2006, p. 77, tradução livre).
Um exemplo trazido pelas autoras é a forma irregular de alguns verbos no tempo passado.
Por exemplo, assim como os aprendizes de primeira língua, os aprendizes de segunda língua geralmente aprendem as formas irregulares do passado de certos verbos comuns antes de aprenderem a aplicar o marcador regular do passado simples -ed. Isso significa que um aprendiz que diz ‘I buyed a bus ticket’ pode saber mais sobre a gramática do inglês do que um que diz ‘I bought a bus ticket’. Aquele que diz ‘buyed’ conhece uma regra para formar o tempo passado e a aplicou a um verbo irregular. Sem mais informações, não podemos concluir que aquele que diz ‘bought’ usaria o marcador regular de passado -ed onde fosse apropriado, mas o aprendiz que diz ‘buyed’ forneceu evidências de um conhecimento em desenvolvimento de um aspecto sistemático do inglês.” (LIGHTBOWN; SPADA, 2006, p. 77-78, tradução livre).
Então, por que você não deve ter medo do erro? Seu cérebro está testando o que funciona. Ao cometer um erro e ser compreendido (ou corrigido), você valida ou descarta uma hipótese. O erro também mostra que você saiu da fase da “decoreba” e começou a criar frases originais baseadas em processos cognitivos mais complexos. Como dizem as autoras:
O caminho da aquisição de linguagem não é necessariamente suave e uniforme. Os alunos apresentam saltos consideráveis de progresso e, em seguida, parecem atingir uma espécie de plateau por um tempo, antes que algo estimule novos avanços. (LIGHTBOWN; SPADA, 2006, p. 80, tradução livre).
O verdadeiro risco não é errar, mas parar de arriscar. Por isso, errar e ser corrigido(a) faz parte do processo de aprendizado de uma nova língua. Na próxima vez que você se sentir frustrado(a) por ter trocado uma preposição ou esquecido um verbo irregular, lembre-se: você não está retrocedendo. Você está construindo seu repertório através de tentativas reais de comunicação.
Referências:
LIGHTBOWN, Patsy M.; SPADA, Nina. How languages are learned. 3. ed. Oxford: Oxford University Press, 2006. (Oxford Handbooks for Language Teachers).

Jonas Ishikawa é um eterno aprendiz que atua na área da educação há mais de 8 anos. Já foi professor de inglês e hoje atua como formador de formadores de professores.

